quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Bonitinha, mas ...


Depois que mudou de emprego, também mudou de vida. Finalmente, sua condição financeira melhorava. Passou cinco anos em um emprego de merda: lavador de carros. Entre um carro e outro, encontrava tempo para ler alguma coisa nos jornais. Viu uma vaga de emprego que poderia dar certo, apesar do pouco estudo, sabia escrever muito bem, pois lia muito nas horas vagas. Decidiu que ia ver o emprego.
Chegando na recepção, viu de longe, uma moça alta, loira, magra e com seios fartos. Achava que a moça usava meia-fina de tão lisa que eram suas pernas, mas não. Era a própria pele da criatura. Antes mesmo de entrar na sala de entrevistas, prometeu a si mesmo: “Tenho que pegar”. Na sala, havia mais uns quatro caras concorrendo a mesma vaga que ele. Pensou: “Não dá pra mim”, mas já que estava lá, não desistiu, foi até o fim. E conseguiu o emprego. “Você começa amanhã”, disse um dos funcionários. Voltou pra casa e foi comemorar. Comprou um maço de hollybomba e um garrafa de Jack Daniel.
No dia seguinte, acordou cedo, tomou um bom café da manhã, vestiu sua melhor camisa e seguiu. Chegando no trabalho, não sabia direto qual seria sua função. Colocaram ele nessas funções de estagiário, até que o remanejassem. Com poucos minutos, eis que surge a moça que vira no primeiro dia. Estava um colosso! Impecável. Não fez nada, não queria perder aquele emprego. Voltar para o sol escaldante não era um de seus planos no momento. Ficou quieto e pôs-se a sondar com os novos colegas de trabalho, quem era a moça. A maioria aconselhava-o: “não mexe com aquilo. Não vale a pena”. Mesmo assim, ele não desistiu. Aquela mulher havia fisgado o sujeito de tal maneira que desistir não era uma opção. Passaram um mês, dois e só ficava observando a moça. A cada dia ela aparecia com um vestido mais bonito que o outro, uns justos, outros decotados. Isso estimulava a imaginação do rapaz e fazia-o quase explodir. Já com alguma intimidade com os colegas, perguntou ao Marcos, seu companheiro de mesa:
_Que tal aquela gatinha?
_Besteira. Deixa pra lá.
_Mas porquê?
_Ela tem um defeito. Bem sério.
_O que? Não tem um rim? Ronca? É diabética?
_Nada disso.
_O que é então?
_Confere lá e me diz.
Isso deixou o moço muito curioso. Voltou pra casa com diversos palpites. Pensou até que a moça fosse travesti. Chegou em casa, se aliviou, tomou um banho e foi dormir, confabulando sobre a questão.
No dia seguinte, chegou disposto a conversar com a moça. Iria tentar sua primeira aproximação. Achava que na hora do almoço seria um bom momento para tal. Esperou ela sentar à mesa e foi correndo sentar ao lado dela. Com um leve sorriso a moça acena com a cabeça, consentindo a presença do rapaz. Então ele diz:
_Oi, tudo bem?
_TUDO E COM VOCÊ?
Olhou para um lado, para o outro, todo sem graça. Achou que a moça havia falado alto demais para a ocasião e continuou a conversar, só que agora mais baixo.
_Trabalho aqui a alguns meses e você?
_TRABALHO FAZ ALGUNS ANOS.
_Gosta do seu emprego? Pergunta o rapaz, quase sussurrando.
_GOSTO MUITO E VOCÊ?
Naquele momento, o rapaz lembrara-se de Marcos dizendo “Ela tem um defeito”. Foi então que houve a epifania: ela falava alto. Esse era o defeito da criatura.
_Você tem namorado?
_NÃO E VOCÊ?
_Não, mas estou à procura.
_ÓTIMO! VAMOS NAMORAR?!
Sabe aqueles silêncios súbitos que acontecem que, palavras ou frases impróprias – ou particulares, que ninguém deve ouvir – ressoam bem alto? Pois bem, foi o que aconteceu. Todo o refeitório olhava diretamente para os dois. E eles, meio sem graça, continuaram suas refeições. Seguiram seus trabalhos até o final do expediente.
O rapaz voltara pra casa com aquilo na ideia. A moça era formidável, mas tinha esse pequeno – aos olhos dele – defeito. Como faria pra namorar? Como iriam ao cinema e o pior! Como iriam transar?! Se a moça, normalmente, falava alto daquela maneira, imagina no sexo?! Mas o rapaz daria um jeito, estava muito afim da moça. Tentou de várias formas conversar com ela, sobre seu probleminha, mas ela achava que aquilo não era um problema e que ele, se quisesse algo sério, deveria aceita-la com tudo, com defeitos e qualidades.
Passaram-se alguns meses e resolveram se casar. No momento mais clichê do mundo, o padre pergunta ao noivo: “
_Você aceita ...
_Sim.

O padre faz a mesma pergunta à moça e como numa equação matemática ela chega ao resultado. A única diferença é que na hora da resposta da moça, o padre tirou o microfone da boca dela. Seguiram felizes para lua de mel. Ao longo dos anos o rapaz aprendera a conviver com a característica da amada. Após trinta anos de casado, a moça rendera-lhe, um casal de filhos. A menina, estudara medicina e o caçula direito. Fora esses dois tesouros – que para o marido eram coisas de outro mundo – a esposa presenteara-lhe com uma surdez total de um dos ouvidos. O esquerdo, para ser mais preciso, visto que este era o lado da cama no qual a amada se deitava todos os dias.

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